06/07/2026 - 10:31 - Por Thiago Batista

Fracasso da seleção brasileira expõe dilema de Ancelotti

João Vitor Revedilho

A Seleção Brasileira, sob o comando de Carlo Ancelotti, enfrenta um cenário crítico após a recente derrota por 2 a 1 para a Noruega em Nova Jersey. A expectativa de que o renomado técnico italiano fosse a solução para conquistar o sexto título da Copa do Mundo se desfez diante de uma equipe que demonstrou esperança e nostalgia, mas também pernas cansadas e escolhas questionáveis.

O que aconteceu

  • A seleção brasileira, com Carlo Ancelotti no comando, sofreu uma derrota por 2 a 1 para a Noruega, em Nova Jersey, expondo fragilidades na equipe.
  • A estratégia de depender de jogadores veteranos como Casemiro, Danilo e Neymar não se mostrou eficaz, levando a um desempenho abaixo do esperado e à falta de renovação.
  • A busca prolongada por Ancelotti e a aposta em uma mescla de gerações resultou em uma equipe sem identidade clara, projetando um possível jejum de 28 anos sem títulos mundiais.

O declínio da Itália no futebol mundial há muito serve como um alerta contundente: a negligência na renovação e no cuidado com a base pode fazer um país ficar para trás rapidamente. O Brasil, agora, depara-se com seu próprio e incômodo estudo de caso, refletindo as consequências de escolhas recentes.

A prolongada busca por Carlo Ancelotti, enquanto ele ainda estava à frente do Real Madrid, manteve a Seleção Brasileira à deriva sob o comando de três técnicos distintos. Quando o italiano finalmente assumiu, o cenário já era de difícil reversão, com pouco tempo — apenas um ano — para consertar três anos de desleixo e falta de planejamento.

Carlo Ancelotti pode ser um dos treinadores mais condecorados e vitoriosos que o futebol mundial já conheceu. Contudo, a recente Copa do Mundo deixou claro que, mesmo os grandes, são apenas humanos e passíveis de erros estratégicos.

Diversas de suas principais decisões se voltaram contra a equipe brasileira. A mais dolorosa delas foi a aposta em jogadores envelhecidos que, em campo, aparentavam estar muito distantes de seus melhores dias e da performance esperada em um torneio de alto nível.

Qual o impacto das escolhas de Ancelotti na equipe?

Casemiro, Danilo e Neymar, nomes de peso com vasta experiência e rodagem em grandes clubes, foram escalados como pilares da equipe. No confronto crucial contra a Noruega, a fragilidade de suas atuações ficou dolorosamente evidente, comprometendo o desempenho coletivo e as ambições da Seleção Brasileira.

Os dois gols da Noruega, por exemplo, originaram-se pela lateral esquerda do Brasil. Foi nesse setor que o jovem Andreas Schjelderup, vindo do banco de reservas, atacou com uma energia e vigor que faltavam claramente à equipe brasileira durante toda a partida.

Danilo, de 34 anos, foi escalado como lateral-direito, uma posição que não ocupa regularmente há anos, tendo atuado mais recentemente como zagueiro reserva no Flamengo. Essa escolha tática resultou em um encaixe brutal em campo, com Schjelderup avançando contra ele com determinação e Danilo parecendo visivelmente perdido.

Veteranos sob pressão: Danilo, Casemiro e Neymar

Casemiro também disputou o torneio com o que se descreveu como “pernas pesadas”. O volante teve dificuldades em acompanhar a velocidade dos adversários, errou passes cruciais e, sob o calor sufocante de Nova Jersey, sua performance remetia à imagem de um caminhão enferrujado subindo uma estrada íngreme com grande esforço.

Neymar, por sua vez, entrou em campo no final da partida, quando o placar estava empatado em zero a zero e a Seleção Brasileira clamava por inspiração. Embora tenha marcado um gol de pênalti nos acréscimos, esse feito se configurou mais como um consolo isolado do que uma verdadeira salvação para o time.

O grande problema residiu no que aconteceu antes de seu gol. Neymar, que chegou ao torneio visivelmente lesionado, ofereceu pouco arranque, poucas surpresas táticas e, principalmente, quase nenhuma daquela explosão de velocidade devastadora que, outrora, o fez ser um dos atacantes mais temidos do futebol mundial.

Com movimentos lânguidos, sua atuação foi lenta e previsível. A imagem que Neymar transmitiu em campo foi de uma tristeza profunda, um contraste gritante com o jogador brilhante e irreverente que costumava ser em seus melhores momentos.

A geração que não veio e o futuro da seleção

Se a intenção primordial era, de fato, preparar uma nova geração de talentos para a Copa do Mundo de 2030, as escolhas recentes da Seleção Brasileira parecem ainda mais difíceis de serem explicadas e justificadas. A estratégia adotada gerou mais dúvidas do que certezas sobre o caminho a seguir.

Com um novo ciclo completo começando mais cedo do que o esperado e pouca pressão imediata para conquistar o mundo, Carlo Ancelotti poderia ter optado por deixar a velha guarda em casa. Essa decisão teria aberto espaço para que jogadores mais jovens ganhassem uma experiência dura, mas inestimável em um grande torneio.

Em vez disso, o Brasil tentou um caminho intermediário, buscando conciliar o passado glorioso com um futuro promissor. Contudo, o resultado foi uma equipe que ficou lamentavelmente presa entre os dois, sem definir sua identidade ou direção clara.

A consequência direta é a projeção de uma espera de, pelo menos, 28 anos pelo ansiado sexto título da Copa do Mundo. Um jejum de tal magnitude é simplesmente inimaginável para um país que construiu sua identidade futebolística sobre pilares como a criatividade, a ousadia e uma superioridade historicamente reconhecida.

Durante grande parte do torneio, a Seleção Brasileira esteve quase irreconhecível em campo. Apenas Vinicius Júnior conseguiu oferecer raros lampejos do brilho de outrora, um lembrete solitário de que o talento individual não desapareceu totalmente da nação pentacampeã.

Contudo, ao redor de Vinicius Júnior, o Brasil pareceu carecer de clareza tática e velocidade. E, o que é mais grave, a equipe demonstrou uma preocupante falta de si mesma, de sua essência futebolística que a tornou admirada globalmente.

*Com Reuters